Entrevistas
Desiludido, promessa do futebol amazonense troca a bola pela feira

De antiga promessa do futebol do Amazonas a pastor e ‘feirante’, Cristiano Moraes de Oliveira, 32, chamado apenas de ‘Cristiano’ no período de 14 anos como jogador, pendurou as chuteiras mais cedo do que esperava: “Acreditava que jogaria até os 36 anos”, revelou. Após atender ao ‘chamado de Deus’ e se desencantar com a gestão dos clubes locais, Cristiano se aposentou, oficialmente, em 2014, sem novos títulos na carreira e no clube que leva o nome da cidade natal dele, Manaus FC.

“Já estava cansado de muitas coisas. Não discriminando o futebol amazonense, mas está num nível tão amador que não consegue dar o que um jogador quer. Falta aos dirigentes valorizar mais os atletas da região, fornecendo infraestrutura e boa estadia para trabalhar. Não tem projetos em longo prazo. Quando voltei para Manaus, vi muitas coisas erradas e me desanimei, largando de uma vez”, declarou Cristiano.

Há dois anos fora do futebol profissional, o ex-meia ofensivo, revelado no Nacional, aos 19 anos, e projetado no São Raimundo, durante a Série B do Brasileiro, em 2005, realizou o sonho de jogar na Europa. Por quase dez anos intercalados, Cristiano defendeu somente clubes da primeira divisão de Portugal, como Paços de Ferreira, Sporting, Beira-Mar e Vitória Setúbal, e da Grécia, o Paok.

“Eu sempre tive o sonho de jogar na Europa, chegar à Seleção Brasileira e defender o Flamengo-RJ (time do coração) em campo. Na minha época, era mais difícil ser convocado para a Seleção. Não tive todos os meus sonhos realizados, só que não me sinto frustrado. Sou uma pessoa realizada por ter ido a Europa e conquistado muitos objetivos”, garantiu Cristiano, que foi campeão da Taça de Portugal, em 2009, pelo Paços de Ferreira, e da Taça da Grécia, em 2010, pelo Paok.

De volta ao Brasil, em 2012, ele disputou novamente a Série B nacional , mas pelo Criciúma. Em seguida, Cristiano voltou para Portugal e vestiu a camisa do Vitória Setúbal, em 2013, mesmo ano em que tentou um recomeço no futebol do Amazonas, pelo Nacional, clube de formação dele. Ele ainda fez a última tentativa, no Manaus FC, mas desistiu.

Religiosidade na Europa

O amazonense revelou que se converteu ainda no Velho Continente. Há três anos, Cristiano prega como pastor, na casa de oração ‘Senhor Nossa Bandeira’, próximo ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Petrópolis, zona sul de Manaus.

“Quando saí da Europa, tinha acabado de aceitar Jesus. Então, tive um chamado muito forte para ser pastor e isso, queira ou não, nos distancia de muitas coisas. Fui largando aos poucos o futebol e o que mais reforçou minha decisão é a falta de profissionalismo dos clubes de Manaus. Assim, Deus me puxou mais ainda, o que não significa que larguei o futebol de uma vez”, comentou, ao citar o interesse de ser técnico.

Sem chances de revogar a aposentadoria, Cristiano decidiu assumir os negócios da família, que desde 1999 vende frutos do mar nos boxes da ‘Casa Moraes’ no Mercado Municipal Adolpho Lisboa e na Feira da Manaus Moderna, no Centro. Ele gerencia o ponto principal e ajuda nas vendas dos produtos, entre os quais camarões, lagostas e bacalhau.

“Fornecemos para restaurantes, buffets e até para o interior. Controlo tudo o que sai”, disse Cristiano, que aprendeu o ofício nas feiras com cinco anos de idade, ajudando o pai. “Minhas duas irmãs trabalharam aqui, mas, hoje, são advogada e psicóloga. Tenho um irmão caçula, só que não quis seguir em frente. Então, quem ficou para tomar a frente fui eu”.

Com a renda dos estabelecimentos, ele sustenta a própria família, formada pela esposa, que é paulista, e as duas filhas, de 1 e 2 anos. Mesmo sem intenção de trocar a nova fase da vida, que é estável e tranquila longe dos gramados, Cristiano admite que financeiramente jogar futebol no exterior era mais lucrativo.

“O futebol sempre deu mais lucro. Isso aqui (os pontos comerciais nas feiras) é um patrimônio que ajuda bastante a minha família, porém, em compensação, o futebol me rendeu mais dinheiro. Ganhei muita grana lá na Europa, valores altos, que nem juízes (de Direito) ganham”, afirmou.

Fonte: Diário do Amazonas
Fotos: Evandro Seixas e Eraldo Lopes

 
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