Entrevistas
Nostradamus: o craque que rejeitou o Fluminense

O pernambucano José Belarmino, que veio para o Acre em 1944, tornando-se maestro da Banda de Música da Guarda Territorial, entendeu de criar um novo tronco familiar a partir dele e da esposa acreana, Elsa Silva. Por isso, todos os sete filhos nascidos da união receberam um nome famoso, ao qual foi acrescentado uma espécie de sobrenome “localizador”.

Dessa forma é que a criança que veio ao mundo em 24 de março de 1950 foi batizada de Nostradamus Brasileiro do Acre. Um garoto que cresceu jogando bola em campinhos de terra batida ou de grama rala. O detalhe insólito, segundo Nostradamus, é que as primeiras bolas eram de seringa, com uma circunferência irregular, dificílima de serem dominadas.

Provavelmente por conta dessa dificuldade inicial, Nostradamus revelou-se na adolescência um jogador de rara habilidade. Tanto que já aos 14 anos, em 1964, ele foi convocado para a seleção do Colégio dos Padres (Meta, hoje), formando com outras “feras” da época, como Flaviano Melo, José Bestene, Dinaldo Gadelha, Romeu e Rômulo, um time imbatível.

Tanto jogava o menino com nome de alquimista francês que já no ano seguinte, 1965, ingressou nos juvenis do Rio Branco. Mas ficou só um ano no Estrelão. Em 1966, com a fundação do Juventus, ele e mais um grande número de jogadores riobranquinos, principalmente os que estudavam no Colégio dos Padres, foram levados para o Ninho da Águia.

Meio de campo espetacular

Nostradamus permaneceu nos juvenis do Juventus por dois anos: 1966 e 1967. No ano seguinte, ele foi promovido ao time titular, formando com Dadão uma das duplas de meio campistas mais espetaculares que já passaram pelo futebol acreano. Ambos de finíssimo trato com a bola, eles eram uma atração à parte nas tardes de domingo do futebol acreano.

Em 1969, aos 19 anos, surgiu a maior das oportunidades para Nostradamus no mundo da bola. De passagem pelo Rio de Janeiro, ele foi visto pelo também acreano Tião Macaco, que era preparador do Fluminense, batendo uma pelada no Aterro do Flamengo. Tião o convidou para ingressar no Tricolor das Laranjeiras. Nostradamus não aceitou.

Ele diz que não ficou por medo de enfrentar a cidade grande, que achava muito violenta. Acabou voltando para o Acre, onde recebeu um convite para jogar no amazonense São Raimundo. Em Manaus, ele ganhava um bom salário, mais casa e comida. Mas ficou só um ano. “A saudade falou mais alto e eu acabei voltando pra casa”, explicou Nostradamus.

Voltou para o Acre e já havia um novo time esperando por ele. Foi só pisar em solo acreano que o Independência o levou para o Marinho Monte. Ficou no tricolor de 1970 a 1973, jogando ao lado de outras lendas do futebol local. Casos, por exemplo, de Aldemir Lopes, Jangito, Palheta, Escapulário, Bebé, Chico Alab, Flávio, Deca, Ociraldo, Airton... Só isso!

O último clube

Em 1974, Nostradamus trocou de ares pela última vez. Deixou a camisa tricolor pela alvirrubra do Rio Branco. Permaneceu em campo com o uniforme do Estrelão até 1977. Em 1978, antes de completar 28 anos de idade, resolveu deixar de correr atrás da bola. Ele havia conseguido dois empregos (Incra e Correios). E aí não sobrava tempo algum para treinar.

Hoje, aos 64 anos, “Nostra” (era assim que os parceiros dos tempos do futebol o chamavam), divide o seu tempo como administrador de uma propriedade rural e com as aulas de uma graduação em Administração de Empresas. Além disso, demonstra a velha categoria em peladas com os amigos, todos os sábados. A intimidade com a bola continua a mesma!

A relação com o passado de futebolista, porém, para por aí. Ele diz que não frequenta mais os estádios. “Nos últimos dez anos fui ao estádio apenas duas vezes. Uma, na inauguração da Arena da Floresta; e outra, no Florestão, para ver o Geovani, que é meu colega de faculdade, jogar. Não vou mais porque acho o nível técnico muito baixo”, disse Nostradamus.

Para encerrar a nossa conversa, perguntei se ele toparia escalar uma seleção dos melhores jogadores do seu tempo. Desafio topado. Ele nem pestanejou. Respondeu que escalaria até mais de uma. “Escreva aí”, disse-me. “Zé Augusto; Chico Alab, Palheta, Mozarino e Duda; Eró, Nostradamus e Dadão; Nilson, Danilo Galo e Tonho. Todos cracaços”.

 
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Fotos: Arquivo Pessoal 


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