Entrevistas
Xepa: "meu destino foi sempre defender"

Quase todo menino postulante a jogador de futebol quer ser atacante. Fazer gols e ver a torcida vibrando cada vez que a bola beija as redes adversárias é o sonho que não sai da cabeça da maioria dos projetos de atletas, seja em nível profissional ou amador. Ser goleiro, de modo geral, é o destino apenas daqueles que não levam jeito algum com os pés.

Esse não foi o caso do adolescente Carlos Alberto Sena Aquino, o Xepa. Na primeira pelada que esse personagem lembra ter disputado na vida, nas areias da praia da Base (bairro central de Rio Branco), ele já foi direto para as traves (formadas, no caso, por duas latas de leite em pó). “Eu nasci goleiro, meu destino sempre foi defender”, garantiu Carlos Xepa.

Da pelada na praia, logo Xepa ganhou um lugar numa equipe do bairro chamada Beira-Rio, que disputava partidas em campos do subúrbio da capital acreana. E daí até tentar uma vaguinha num time “federado” foi só um passo. Primeiro no juvenil do Rio Branco, onde ninguém lhe deu atenção. Depois no Juventus, onde lhe foi dada a primeira chance.

“Eu fui ao Juventus em 1971, num dia de ‘friagem’. Eles resolveram me dar uma chance, mas não estavam botando muita fé não. Tanto que só me deram um par de chuteiras e um calção. Fiquei com um frio danado esperando a minha vez de ser testado. Só foram me dar uma camisa depois que eu entrei em campo e fiz duas boas defesas”, contou Xepa sorrindo.

Jornalista foi o primeiro professor

Xepa ficou no Juventus até 1977. No time juvenil a permanência durou até 1973. Depois disso começou a ser escalado no time titular, revezando com os outros goleiros do clube, principalmente Milton e Filogônio. “Foi uma fase de intenso aprendizado, sob a orientação do jornalista José Xavantes. Eu treinava o dia inteiro”, explicou o ex-atleta.

Nesses seis anos defendendo o Juventus, Xepa não ganhou nada, financeiramente falando. “A maioria de nós, jogadores, defendia o Juventus por amor. O Juventus, sob a direção do Elias Mansour, era uma verdadeira família. A gente gostava tanto do clube que sequer saíamos à rua no dia em que perdíamos um jogo. Ficávamos com vergonha da torcida”, disse Xepa.

Em 1978 surgiu a grande chance de começar a ganhar dinheiro com o futebol. É que um diretor do Fast Club, de Manaus, um senhor de nome Orleans, viu Xepa em ação, pelo Juventus, contra o Independência. O Juventus ganhou por um a zero e o menino do bairro da Base fechou o gol. Foi o suficiente para surgir o convite, aceito imediatamente pelo goleiro.

Mas a vida no Fast não foi nada fácil. Durante seis meses, Xepa ficou só treinando. Não ganhava nada para isso. Tinha direito só a casa e comida. O Fast tinha quatro ótimos goleiros, entre os quais um chamado Iane, também acreano. Os dirigentes amazonenses diziam que ele deveria ter paciência. Ele teve. No segundo semestre de 1978 virou titular absoluto.

A volta para o Acre

Depois de dois anos no Fast, o goleiro resolveu voltar para o Acre. “É que o salário lá estava atrasando e o Juventus, apesar do futebol acreano ser amador, me fez uma ótima proposta. Ofereceu-me um bom dinheiro em luvas e mais um emprego público. No final das contas, as luvas foram realmente pagas, mas o emprego não foi o esperado”, afirmou Xepa.

Para voltar a defender o Juventus, Xepa recusou duas oportunidades de continuar como profissional. Uma delas para fazer testes no Santos, de São Paulo. A outra, para assinar com o alagoano CSA. “O que houve foi que as duas propostas surgiram depois que eu tinha dado a minha palavra para o Juventus”, comentou o personagem em tom de arrependimento.

A lua de mel com o Juventus durou só mais dois anos (1980 e 1981). Aborrecido por não ter conseguido o emprego prometido, Xepa migrou para o Andirá em 1982. Daí até o fim de carreira, em 1987, foi uma espécie de ciranda por vários clubes, entre os quais o Rio Branco, o Independência, o Atlético e o Amapá. Em todos com a mesma competência de sempre.

Hoje, aos 60 anos (ele nasceu em 30.10.1954), depois de ter tentado uma carreira artística (chegou a gravar um CD e a fazer shows pelo interior do Estado) e uma carreira política (foi vereador pelo PDT em Porto Acre), o ex-goleiro diz que não vai mais aos estádios. “Não tem mais graça. O nível técnico do futebol acreano caiu muito de um tempo pra cá”, finalizou.

 
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Fotos: Arquivo Pessoal 


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