Entrevistas
Dedeu: o cara do jornalismo esportivo em Cruzeiro do Sul

Pelo nome próprio, Adelcimar Assen de Carvalho, pode ser que poucos o conheçam em Cruzeiro do Sul. Se, entretanto, o vocativo for Dedeu, dificilmente alguém não o apontará como o repórter esportivo da Rádio Integração que luta diuturnamente pela divulgação e pela elevação do futebol da cidade. Um “futeboleiro” em tempo mais do que integral!

Antes, porém, de virar radialista, Dedeu foi bancário de três instituições: Bradesco, Itaú e Banacre. Deste último saiu devido a rumores de que o banco ia “quebrar” (o que de fato aconteceu). Antes da falência, Dedeu aderiu a um Programa de Demissão Voluntária (PDV) e com o dinheiro comprou um automóvel Monza para ganhar a vida como taxista.

Em 1996, por conta da amizade que fez com um diretor da firma de engenharia Emsa, foi ser apontador de trecho na construção da BR-364, passando em seguida para o cargo de chefe de almoxarifado. Mas não ficou nem um ano no emprego. Depois de pegar três malárias resolveu voltar para a cidade. Foi aí que veio o convite para trabalhar na Rádio Integração.

“Eu fui convidado para apresentar um programa de esportes na Rádio Integração pelo Claudionor Onofre. Eu acho que ele me convidou porque eu tinha sido jogador e técnico de futebol. Parei de jogar aos 28 anos quando descobri que sofria de gota. E também fui técnico de várias equipes, inclusive da seleção de Cruzeiro do Sul”, explicou Dedeu.

Já se passaram 17 anos desde que Dedeu assumiu a crônica esportiva como a sua principal ocupação. Ele apresenta um programa diário a partir das 7 da manhã, faz reportagens de pista em dias de jogos do Náuas e cobre eventos esportivos de várias outras modalidades. Mas, além disso, ele ainda faz reportagens policiais e escreve para o jornal Tribuna do Juruá.

Foi com esse personagem que eu, em companhia do jornalista Manoel Façanha e do presidente da Federação de Futebol do Acre, Toniquim Aquino, fui conversar numa tarde de maio chuvosa em Cruzeiro do Sul. E enquanto a conversa fluía, o Dedeu preparava um guisado de carneiro no fogão da sua casa (ele também é um exímio cozinheiro!).

Seguem-se alguns trechos da nossa conversa.


Francisco Dandão 
– Além de tudo, você ainda sabe cozinhar, Dedeu?
Dedeu – Eu aprendi a cozinhar com a minha mãe, D. Ralime. Todos os meus irmãos sabem cozinhar. Foi uma arte que ela nos legou, graças a Deus. E tem mais: aqui em casa quem faz a comida sou eu. Mas esse carneiro aqui que eu estou preparando agora é especial para o Faísca [técnico do Vasco da Gama, de Rio Branco, que jogaria com o Náuas no domingo, dia seguinte à nossa conversa], que eu convidei para jantar comigo hoje. Prometi pra ele na última vez que estive em Rio Branco.

Francisco Dandão – O que é ser jornalista pra você, Dedeu?
Dedeu – Missão de vida. Trabalhar sem cessar pra deixar a comunidade onde você vive bem informada. Só que, às vezes, uma missão incompreendida. As pessoas gostam da notícia, mas desde que elas não sejam afetadas.

Francisco Dandão – Fale do seu trabalho como jornalista esportivo. Como é fazer jornalismo esportivo em Cruzeiro do Sul?
Dedeu – Fazer jornalismo esportivo é bastante prazeroso. Mas, em Cruzeiro do Sul é muito difícil, porque o fluxo de matérias é muito pequeno. Na época da disputa do campeonato de futebol profissional, até que dá bem pra fazer, porque tem as notícias do Náuas. Depois disso só tem o campeonato municipal de futebol amador. Tirando essas duas competições, só existem pequenos torneios, jogos escolares, atividades esporádicas. Mas a gente se vira.

Francisco Dandão – E a sua fase como técnico no futebol amador, o que restou dela?
Dedeu – A experiência que eu vivi como técnico de equipes amadoras foi sensacional. Vivi os melhores momentos da minha vida no esporte como técnico de equipes não profissionais. Os melhores amigos que eu tenho são dessa época. As amizades mais duradouras, aquelas que perduram até hoje, foram feitas no período em que eu fui técnico. Mas, apesar disso, eu não pretendo jamais dirigir um time de futebol.

Francisco Dandão – Não entendi. Você fala que as melhores amizades foram feitas quando você foi técnico no futebol amador, mas em seguida você fala como quem guarda alguma mágoa dessa época...
Dedeu – É que eu acho que o meu tempo de técnico passou. A gente tem que dar lugar para outras pessoas. Além do mais, eu acho que toda a minha dedicação pelo esporte não teve o devido reconhecimento quando eu precisei. Eu fui candidato a vereador pelo PMDB, aqui em Cruzeiro do Sul, em 2012. Por tudo o que eu havia feito no esporte, eu acreditava que conseguiria ser eleito. Quando as urnas foram abertas, eu tive somente 137 votos. Muito longe do necessário para conseguir uma vaga na Câmara Municipal. Vou continuar militando no esporte, mas como cronista. Técnico e candidato, jamais. Tô fora!

Francisco Dandão – Mas você também teve uma experiência como técnico profissional, né mesmo?
Dedeu – É verdade. Mas foi uma passagem bem rápida. Foi numa emergência, no ano passado [2013]. O Náuas vinha muito mal no campeonato e a direção do clube resolveu substituir o técnico Zé Armando. Quando eu assumi, o time tinha feito um ponto em dez partidas. Empatou um jogo e perdeu nove. Assumi por quatro partidas. Ganhei um jogo, empatei um e perdi outros dois. Mas, como eu disse, foi apenas numa emergência. Sem estrutura é muito difícil montar um time competitivo.

Francisco Dandão – Cruzeiro do Sul já deu ao Acre inúmeros bons jogadores. Quais os três melhores que você teve oportunidade de ver jogar?
Dedeu – Essa é uma pergunta complicada. Como você disse, ao longo do tempo foram inúmeros os talentos surgidos no futebol local. Além do mais, fazer uma lista é sempre perigoso deixar alguém de fora. Mas, para não deixar a sua pergunta sem resposta, eu vou ficar com o Eder Macaúba, que era um ponta-direita veloz e driblador, que corria com a bola colada no pé; o Davi Maia, que nos anos de 1970 era um craque na meia-esquerda; e o Ramon, que chegou a jogar profissionalmente no Juventus, no Rio Branco e no La Loretana, de Pucalpa, no Peru. Esses foram geniais!

Francisco Dandão 
– Sobre o futuro do futebol cruzeirense, Dedeu, qual a sua opinião a respeito desse tema?
Dedeu – Tem que haver uma reestruturação total na parte da organização, privilegiando as categorias de base. Antigamente havia campeonatos de base o ano inteiro. E era dessas competições que saíam os nossos melhores jogadores. Hoje isso não existe mais. Isso precisa voltar, com a maior urgência. E falta, além disso, espaço para a molecada bater pelada. A especulação imobiliária e o crescimento da cidade acabaram com os campinhos de várzea. Lamentável!

Francisco Dandão – E o futebol acreano, o que falta para subir de divisão, em nível nacional?
Dedeu – Melhorar em todos os aspectos: tático, técnico, físico, financeiro. Sem esse processo geral de qualificação, o máximo que se pode chegar é à série C. Tudo passa pela qualificação. Veja o caso do Náuas deste ano. O Zacarias Lopes, seu treinador, fez vários cursos fora do Estado. Com o conhecimento obtido ele conseguiu montar um esquema tático que dotou o Náuas de uma defensiva sólida, mesmo sem contar com nenhum grande craque. Pelo menos no aspecto tático, dentro das suas limitações, o Náuas desse ano fez um campeonato bem competente. Isso vale para o futebol acreano como um todo. A melhoria pela qualificação.

Francisco Dandão – O Náuas pode ser campeão estadual algum dia? Qual o caminho para alcançar tal objetivo?
Dedeu – Pode. É só manter o caminho que está sendo trilhado hoje, no sentido da valorização da prata da casa. O que faltou esse ano para chegar mais longe foi reunir todos os jogadores cruzeirenses para defender o Náuas. Se todos os jogadores locais que defendem outras equipes nesse campeonato ou que estão sem clube estivessem no Náuas, o time provavelmente estaria classificado para a disputa das semifinais. São pelo menos cinco jogadores cruzeirenses de ótimo nível que não estão hoje no Náuas. Tem o zagueiro Gato, no Plácido de Castro; o volante Doni, no Galvez; o meia Bergson, que foi contratado para fazer um jogo pelo Alto Acre; além dos atacantes Luis Henrique e Valdo, ambos sem clube. Com eles, o Náuas certamente teria sido um time bem mais forte.

 


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