Entrevistas
Trator do Norte relembra 'reinado' no estádio Zerão

São mais de 500 gols marcados na carreira e cerca de 300 deles nos gramados amapaenses. Esta é a marca do legado de Raimundo Américo Furtado de Miranda, de 51 anos, conhecido popularmente como 'Trator'. O apelido se encaixava perfeitamente à atuação voraz do jogador, considerado o maior artilheiro da história do futebol profissional amapaense e ídolo do Ypiranga Esporte Clube na década de 1990.

Nascido na cidade de Altamira (PA), Miranda é o segundo de três filhos. O ex-jogador conta que a habilidade com a bola foi passada pelo pai, que atuou em vários times do Pará e fez questão que os filhos seguissem seus passos. O primeiro time profissional em que atuou foi o Paysandu, mas a escolha foi contra a vontade do genitor.

- Sou de uma família de remistas 'doentes' e todos ficaram incomodados com a minha entrada no time rival. Meses depois, acabei atendendo à vontade dele e integrei a equipe do Leão até os 18 anos, quando retornei à minha cidade para servir ao Exército, lá entrei no time local e atuei por seis anos - conta.

TRAJETÓRIA DO 'TRATOR'

Em 1987, Miranda foi transferido para o 34º Batalhão de Infantaria de Silva (34º BIS), no Amapá, e além da patente de tenente do Exército, procurou dar prosseguimento à carreira de jogador de futebol. No mesmo ano, integrou o elenco do Trem Desportivo Clube, disputando o antigo 'Copão da Amazônia'.

- Nós fizemos uma excelente campanha, pois o time era forte com jogadores completos. Consegui ser o artilheiro e responsável pelo pentacampeonato do Trem na competição - relembrou.

O veterano também participou da campanha do Independente no Copão e ajudou o time a conseguir o título da competição no ano seguinte. Em 1989, o ex-jogador passou no concurso da Polícia Militar e integrou a corporação até 1991, quando viajou para Minas Gerais para fazer um curso para o Corpo de Bombeiros. Na época, Miranda fez uma passagem rápida pelo Atlético Mineiro e pela equipe do Democrata.

- Os dirigentes destes clubes tiveram interesse em me contratar, mas a condições imposta por eles era que eu tinha que largar a  farda. Como vinha há anos conciliando as duas profissões, decidi recusar e retornei ao Pará - disse.

Na volta aos gramados paraenses, Miranda retornou à equipe do Remo e participou do campeonato paraense de 1991.

- Tive um bom desempenho na época e ajudei o time em importantes vitórias, principalmente contra o Paysandu. Devido a problemas com o treinador, larguei a equipe e retornei para o Amapá - recorda Trator.

ERA 'ZERÃO' E YPIRANGA

Em outubro de 1990, após a inauguração do estádio 'Zerão' ( hoje com o nome Milton de Souza Correa), único estádio cortado pelos dois hemisférios, Miranda foi o autor do primeiro gol oficial no campo, durante a vitória do Independente sobre o Trem.

No início da era profissional do futebol amapaense o atacante teve sua melhor fase. Nas seis temporadas em que participou, o jogador foi artilheiro em todas, com média de 20 gols por temporada, sendo campeão pelo São José, Independente, Cristal e Ypiranga, onde considera ter tido sua melhor participação em campeonatos.

- O título de 1992 pelo Clube da Torre significa muito para mim, pois tínhamos uma equipe formada de bons jogadores e excelentes dirigentes. A final foi contra o Trem, que  tinha um elenco forte e experiente. Na decisão, eu marquei dois dos três gols do time, quebrando um jejum de 15 anos sem título do Ypiranga - relembr com alegria.

O último time em que Miranda jogou foi o Independente e após lesionar o joelho direito, em 1996, decidiu se aposentar. Apesar da idade, o 'matador' diz que não consegue abandonar o futebol.

- Eu ainda jogo pela categoria master, mas devido à lesão decidi dar uma pausa. Terei que operar o meu joelho daqui a alguns dias e quando estiver melhor, voltarei o quanto antes aos gramados, pois meu lugar é lá - disse, bem humorado.

PRESENTE

Atualmente, o ex-jogador é mais conhecido como Coronel Miranda e apesar da longa trajetória como esportista, o veterano nunca deixou os estudos de lado. Formou-se em Publicidade em 2001 e acaba de concluir o curso de Educação Física.

- Minha carreira militar nunca atrapalhou minha vida de atleta, pelo contrário me ajudou muito, principalmente na preparação física. Queria muito poder viver somente de futebol aqui, mas infelizmente, a realidade é triste para quem quer viver do esporte do Amapá - lamenta.

Miranda é pai de cinco mulheres e diz que tem vontade de passar os ensinamentos do esporte para um futuro herdeiro.

- Apesar das minhas filhas adorarem futebol, nenhuma quis ser jogadora. Porém, espero que elas possam retribuir com um neto e que ele nasça com a mesma habilidade do meu pai e dos meus irmãos, para que possa dar continuidade à trajetória de atletas na família - falou humorado.

FUTURO

O atleta veterano acredita em um futuro otimista para o futebol local, mas pondera que isso depende de um trabalho sério e esforço de dirigentes e clubes. A falta de apoio e estrutura é um dos maiores problemas do futebol local, combinados com baixo número de competições realizadas no ano.

- Temos que admitir que o estado não forma mais craques como antes, pois os jogadores não jogam mais por amor à camisa. Acredito que a partir da reforma dos estádios essa realidade possa mudar - declarou.

Considerada uma segunda casa para o jogador, o Zerão será um local em que sempre irá lhe trazer boas lembranças da carreira e do período áureo do futebol amapaense.

- Era bonito de ver os torcedores lotando as arenas, levando as suas bandeiras e torcendo e incentivando o time do coração. São coisas que só quem viveu e presenciou sabe explicar - finaliza.

Nota da GloboEsporte.com/AP: para a produção das fotos que ilustram esta matéria, entramos no estádio Milton de Souza Corrêa, o Zerão, que está em obras, com a devida autorização e usando todos os equipamentos de segurança. Os capacetes, itens  obrigatórios, só foram retirados para as fotografias, feitas no campo, fora da área de perigo e com acompanhamento de técnicos da obra.

 
Galeria de Fotos
Carreira - Fotos: Raimundo Miranda/Arquivo Pessoal 


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