Entrevistas
Ex-goleiro do Remo prova que existe vida após o futebol

Nem sempre fama é sinônimo de sucesso. Ainda mais quando se trata de sucesso pessoal. “Os caras sempre falavam: ‘ah, pô, tu sempre foi o terceiro, segundo goleiro. Mas eu sempre fui terceiro, segundo, na época que o Remo era Remo”. As palavras são de Augusto Jucélio da Silva Mariz, 32 anos, ex-goleiro do Clube do Remo. Jucélio atuou no Remo por sete anos e meio, mas poucas vezes como titular.

“Por opção de treinador, por ele estar me achando melhor, foi no início da Série C em 2005 e em um torneio que teve antes, em Santarém, quando o Valter Lima era o técnico”, afirma. Jucélio recorda que nesse tempo, como se diz, roeu o osso pra ser descartado na hora do filé. “Antes da Série C, tivemos três meses de amistosos pelo interior e esse torneio que teve em Santarém. Esse período eu fiquei como titular. Foi a época que começaram a me olhar com outros olhares. Mas aí chegou o Rafael (goleiro contratado) para a Série C e saí do time”, relembra.

Fatos como esse foram pesando na balança da carreira de dez anos de Jucélio, iniciada em 1995, no Castanhal, e encerrada em 2005, no Leão. “No futebol, de certa forma, eu tive algumas infelicidades. O atleta do estado não é valorizado como deveria: o goleiro de fora recebia mais, já vem do clube tal, mas no final quem jogava era você”, conta. Mas nada que traga mágoas. “Fazemos amigos no futebol, mas fiz mesmo família no Remo”, diz.

Em meio a essas circunstâncias, Jucélio teve algo que muitos, incluindo os protagonistas dos anos 90 do Filho da Glória e do Triunfo, não conseguiram: ter a cabeça no lugar. “Eu sempre soube o que é obvio: a carreira de futebol não é diploma e tem uma vida útil curta. Temos jogadores que ganharam coisas exuberantes e não tem onde morar”, observa. Desde o início da carreira, o goleiro sempre pensou no futuro. Chegou a investir em gados em uma fazenda da família e chegou até a fazer trabalhos como modelo. “Eu não fiz querendo aparecer e essas coisas, fiz porque queria uma renda extra, mas depois vi que gastava mais do que ganhava”.

Jucélio só se aquietou depois que seu espírito empreendedor veio à tona. “Tinha uma irmão que era formado em Ciência da Computação. Estava como renda boa e decidimos abrir uma loja de informática”, explica. Hoje, alguns anos depois, o ex-goleiro azulino possui duas lojas em Belém, além de uma filial no interior. Para sucesso no ramo do comércio, Jucélio garante que não teve apoio do mundo da bola. E deixa claro: “É muito do lado familiar e do seu círculo de amigos, porque aqui, a cultura dos caras é usar você até o momento em que você sabe chutar uma bola. O clube não forma jogador para vida”, garante.

Mesmo assim, Júcelio não hesita quando questionado se faria tudo de novo. “Agora, se possível”, brinca. Mas, como bom homem de negócios, acrescenta. “Faria tudo de maneira melhor”. Para quem soube ganhar a vida sendo terceiro goleiro, o discurso para ver o seu clube de volta às glórias vem na ponta da língua. “É igual a uma empresa: para ter sucesso, precisa de uma boa administração. Assim o Remo volta a ser aquele de 45 mil pessoas no estádio”.

 


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