Entrevistas
Adel Derze: Memórias e histórias de um ex-dirigente do futebol

Natural de Sena Madureira, onde nasceu no dia 15 de maio de 1929, o major Adel Derze, reformado da antiga Guarda Territorial do Acre, foi um dos maiores dirigentes do futebol acreano nos anos do amadorismo, exercendo cargos no Atlético Acreano, no Independência e na então Federação Acreana de Desportos (FAD), primeiro como vice-presidente (na gestão do professor Carlos Simão) e depois como principal mandatário.

De passagem por Rio Branco, depois de uma longa temporada em Salvador e no Rio de Janeiro, para comemorar o seu aniversário de 82 anos com os filhos Abdel, Ader e Ada, ele nos recebeu num final de tarde na casa onde viveu por muitos anos, na rua Silvestre Coelho, ao lado da Igreja Batista do Bosque. Bem humorado, o major Adel Derze não se recusou a desfiar lembranças durante um par de horas, enquanto a noite caía.

Confira abaixo trechos do pensamento externado por Adel Derze durante a nossa agradável conversa.

A vida como dirigente

"A minha iniciação como dirigente do esporte acreano deu-se por conta de um convite que eu recebi para ajudar o professor Chile na organização e no desenvolvimento de atividades no Departamento de Boxe do Atlético Acreano, no começo da década de 1970. Esse trabalho, aliás, teve o poder de revelar pelo menos um grande boxeador, que foi o Lourenço. Um rapaz que nós, no caso eu e o professor Chile, instruímos e que chegou a disputar competições nacionais com muito brilhantismo. Depois disso, eu fui convidado a dar a minha contribuição no Independência, clube pelo qual eu torço até hoje. Aliás, abrindo um parêntese, eu devo dizer que sou tricolor em todos os lugares. Independência, Fluminense, São Paulo, Grêmio... Onde tiver um time tricolor, é por ele que eu torço... Após passar pela diretoria do Independência, eu fui vice-presidente da Federação Acreana de Desportos, assumindo, algum tempo depois, a presidência, permanecendo no posto por dez anos. Isso em 1974."

Copão da Amazônia

"Posso dizer que o Copão da Amazônia, competição que envolvia os times amadores do Norte do país, no caso Roraima, Acre, Rondônia e Amapá, foi criado por iniciativa minha e do Vinícius Danin, da federação de Rondônia. Nós fomos a um encontro de dirigentes no Rio de Janeiro, na sede da então Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, atual CBF, e lá propusemos essa idéia, uma vez que todos os outros estados já participavam de competições nacionais, e nós, do Norte, por sermos amadores, não tínhamos um torneio que nos colocasse em atividade uns contra os outros. O então presidente Heleno Nunes gostou da idéia, prontamente aceitou o nosso pedido e tratou de oficializar no calendário da CBD o Copão da Amazônia. Se não me falha a memória esse fato se deu no ano de 1974, com o primeiro Copão sendo realizado em Porto Velho, no ano seguinte, 1975."

A organização do Copão

"O Copão da Amazônia sempre foi organizado da forma mais correta possível, uma vez que essa organização ficava diretamente sob a responsabilidade da própria Confederação Brasileira de Desportos. A tabela da competição, o regulamento, quais eram os atletas que tinham condição de jogo, o material para a disputa, o deslocamento das delegações, a hospedagem, tudo era a CBD que organizava e patrocinava. Mas existiam os senões. Internamente existiam alguns senões. Tinha os prós e tinha os contras. Existia uma grande rivalidade entre os participantes. Isso fazia com que nem sempre as partidas transcorressem no clima de cordialidade que deveria acontecer. A parte isso, existia uma coisa muito boa, que era a qualidade técnica das equipes participantes. Nós do Acre, por exemplo, sempre fomos representados por ótimas equipes. Rio Branco, Juventus, Independência e Atlético, com mais destaque para os dois primeiros."

Principais realizações

"Eu considero que ajudar a criar o Copão da Amazônia, em parceria com o presidente da federação de Rondônia, foi o grande feito da minha gestão à frente da Federação Acreana de Desportos. Mas, além disso, eu considero importante também a abertura que eu dei para a participação de mais times nas competições organizadas pela federação. Costumeiramente, nós tínhamos aqui oito equipes que disputavam as competições oficiais. Aí o que eu fiz foi abrir um leque que permitisse outras agremiações participarem dos campeonatos. E como é que isso foi feito? Simplesmente criando uma segunda divisão. Organizamos esse campeonato da segunda divisão, que quase sempre era encabeçado pelo São Francisco, do saudoso desportista Vicente Barata, time esse que, com o tempo, conquistou legitimamente, no campo de jogo, o direito de ascender à primeira divisão. O São Francisco sempre foi uma das forças da segunda divisão."

O advento do profissionalismo

"Apesar de não acompanhar muito de perto o atual estágio do futebol acreano, uma vez que há muito tempo estou morando fora do Estado, primeiro em Salvador, depois no Rio de Janeiro, eu sinto que melhorou um pouco o nível dos espetáculos do nosso futebol. Melhor dizendo, melhorou muito, e não apenas um pouco, como eu disse anteriormente. Essa melhora, no meu modo de entender as coisas, se deve a vários fatores, entre os quais o intercâmbio de jogadores que vem jogar nos times daqui e a possibilidade de disputar competições nacionais, com times de vários lugares do Brasil. Antes, a gente só jogava mais era contra Rondônia, que tinha um nível semelhante ao nosso. Só quando uma equipe grande do Sul ou do Nordeste do país fazia uma excursão é que nós tínhamos a chance de medir forças contra adversários mais categorizados. Havia bons jogadores por aqui, mas não havia como estabelecer uma comparação técnica."

Os dirigentes do futebol amador

"A minha relação com os dirigentes de clubes da minha época, eu diria que era apenas regular. Tinha uns que adoravam armar uma confusão, porque queriam todas as vantagens para as suas equipes, em detrimento das co-irmãs, não querendo aceitar as determinações da própria CBD. Muitas coisas era eu que sugeria para a CBD, que sempre acatava. Mas alguns dirigentes locais se julgavam prejudicados e se rebelavam. Mas, independente dessas eventuais indisposições comigo, existiam muitos dirigentes bastante capacitados. Casos, por exemplo, do Elias Mansour, do Juventus, que era um desportista pra lá de esforçado, digno de encômios e elogios; do doutor Adauto Frota, do Atlético Acreano, um homem que eu tive o prazer de auxiliar, antes da minha ascensão à presidência da federação; do doutor Lourival Marques, do Rio Branco, excelente pessoa, amigo e que sempre deu tudo de si pelo time do coração; e do Adalberto Aragão, que dirigiu o Independência com muita garra e muita fé, fazendo da referida equipe o verdadeiro Tricolor de Aço do futebol acreano."

Mágoa e alegria

"A minha grande mágoa enquanto dirigente do futebol acreano deu-se quando da minha saída da presidência da FAD. É que determinados representantes de clubes tentaram denegrir a minha imagem, dizendo que algumas das minhas atitudes haviam sido prejudiciais às suas agremiações. Eles entendiam que eu fazia ou deixava de fazer algumas coisas que os prejudicavam. Mas isso não era verdade. Eu sempre tratei todos com respeito e de forma igual. Sempre me pautei pelo trabalho igual para e por todos. Essa falta de reconhecimento me deixou uma profunda mágoa no coração. Mas, em compensação, até hoje eu me recordo com grande alegria o fato de ter sido recebido, junto com o Danin, da federação de Rondônia, pelo Almirante Heleno Nunes, que prontamente atendeu a nossa reivindicação de criar o Copão da Amazônia, no meu entender a maior competição do futebol amador que já aconteceu na região Norte do país."

FICHA DO DIRIGENTE


ADEL DERZE (1975/1976)
Período: 28/02/1975 até 15/03/1977
ADEL DERZE (1979/1980)
Período: 15/03/1979 até 31/03/1981

 


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