Entrevistas
Tidal e Atlético Acreano: uma história de eterna paixão

Aos 56 anos, 20 deles dedicados à proteção da baliza do Galo Carijó, o ex-goleiro Tidal, considerado por muitos uma lenda viva da agremiação, tem hoje como missão colocar em forma os três goleiros da equipe celeste de profissionais. Um deles é o próprio filho Tidalzinho, 33 anos.

Humilde e cativante com os amigos, na tarde da última sexta-feira o ídolo celeste abriu o coração para falar da carreira vivida por duas décadas no clube celeste. Indagado a respeito de jamais ter jogado em outra agremiação, ele não se conteve e falou de sua paixão pelo Atlético Acreano. O ex-goleiro confidenciou os motivos pelos quais teria recusado inúmeras propostas de clubes locais e até mesmo do Clube do Remo para não abandonar o clube que ama.

Na conversa com a nossa reportagem, o ex-arqueiro celeste ainda relembrou a decisão histórica de 1987, quando, no apagar das luzes, aos 44 minutos do 2º tempo, fez uma defesa espetacular numa bola parada do então volante juventino Carioca. A defesa ajudou a por fim a um jejum de 19 anos sem título a favor da agremiação celeste.

No fechamento da conversa, o ex-camisa 1 do Galo Carijó conclamou a torcida celeste a invadir os estádios nesta temporada para empurrar o Galo para cima dos seus adversários e acabar com um jejum de duas décadas sem títulos no profissionalismo – última conquista ocorreu na temporada de 1991, quando Tidal, já veterano, era o reserva do saudoso goleiro Antônio José.

Na seqüência, o leitor pode conferir os principais trechos do bate-papo com a reportagem de O Rio Branco.

ORB – Ainda quando criança, o senhor atuava como zagueiro. O que foi que o fez mudar de idéia?
TIDAL – Verdade. Cheguei ao Galo ainda adolescente pelas mãos do velho Jaú. Logo depois, o professor Alício Santos e o Rodomilson [atacante do time na época] colocaram na minha cabeça que o meu negócio era em baixo das traves. Foi um desafio, mas aceitei a idéia.

ORB – Na época, quantos anos o senhor tinha?
TIDAL – Tinha 16 anos, mas o suficiente para ganhar a confiança da comissão técnica, tanto que logo depois virei titular.

ORB – Sabe-se que o senhor gostava de jogar Torneio Início, que era uma verdadeira festa, quando as torcidas de todos os clubes se faziam presentes num mesmo local e dia para reverência o futebol local, idéia que vai ser resgatada esse ano pela Associação dos Cronistas Esportivos do Acre (Acea). E, por falar nisso, Torneio Início é um tipo de competição onde os goleiros trabalham bastante, pois muitos jogos terminam empatados e a decisão vai para as cobranças de penalidades. O senhor tinha algum segredo para pegar penalidade?
TIDAL – Sim. Sempre deixava um lado aberto para o cobrador e, muitas vezes, dava certo.

ORB – O senhor conviveu 20 anos dentro do Atlético Acreano. Enfrentou bons e maus momentos e, como ninguém, conhece a história do clube. Portanto, gostaria de saber quais os presidentes para quem o senhor tira o chapéu?
TIDAL – Sem dúvida, o Dr. Adauto Frota. Um presidente que era amigo dos jogadores, da comissão técnica e da torcida. Um homem honrado. No entanto, não poderia esquecer o Dr. Wilson Ribeiro, outro presidente muito bom para os jogadores. Neste momento, aproveito para elogiar o bom trabalho da atual diretoria, que tem resgatado o prestígio do Atlético Acreano.

ORB – Na época que o senhor jogou, era muito comum alguns torcedores mais empolgados gratificarem os jogadores. Algo assim ocorreu com o senhor?
TIDAL - Sim. Porém, minha maior gratificação financeira dentro do futebol foi uma residência comprada pelo Dr. Adauto Frota.

ORB – Porque o senhor jamais deixou a baliza do Galo para ir defender outro clube?
TIDAL - Primeiro pelo meu amor pelo Atlético. Depois, jamais nenhum presidente me quis longe da agremiação. Sempre que aparecia alguma proposta, eles tratavam de rechaçá-las, muitas vezes através do convencimento.

ORB – O senhor esteve perto de uma transferência para o Clube do Remo (PA). Como ocorreu isso?
TIDAL - Não me lembro exatamente o ano, mas certa vez, numa excursão do Clube do Remo à capital acreana, os dirigentes do clube paraense demonstraram interesse no meu futebol após uma partida minha contra eles, mas resolvi ficar por aqui mesmo.

ORB – A decisão de 1987 entre Atlético e Juventus estava no finalzinho. Uma bola parada a favor do adversário separava o Atlético Acreano do fim de um jejum de 19 anos sem gritar é campeão... . Na bola, um especialista, assim como o senhor costuma qualificar o cobrador, o então armador Carioca. Explique o desfecho do lance.
TIDAL - Era um jogo difícil. Uma final cheia de adrenalina. Nossa torcida não agüentava mais o grito de campeão entalado na garganta. Se a bola entrasse, completaríamos, no ano seguinte, duas décadas de jejum sem conquistas. Sabia da qualidade do cobrador, mas eu também estava ciente que eu seria decisivo naquele lance. Naquele momento lembrei-me de tudo de bom que a torcida e os dirigentes tinham feito na minha carreira, assim como do amor que sentia pela agremiação. Então, quando a bola viajou sobre a barreira, dei o máximo de mim para chegar nela. Felizmente, consegui desviá-la com as pontas dos dedos. Acho que foi à defesa da minha vida.

ORB – Quem estava no Stadium José de Melo comenta até hoje que o senhor vibrou muito com aquela defesa. Verdade?
TIDAL - Sim. Tinha motivos de sobra para tal manifestação. O jogo já estava no finalzinho e, naquele momento, senti que não perderíamos mais o jogo. O placar estava 1 x 1, gols de Cascão (ACJ) e Tinda (Atlético), e favorecia o Galo.

ORB – Todo atleta tem um ou vários ídolos. E o senhor tem algum?
TIDAL – Sim. O meu ídolo aqui no futebol local era o Xepa. Um ótimo goleiro de nossa época. Mas, em nível de Brasil, um goleiro que achei excepcional foi o Taffarel. Um excelente goleiro, principalmente nas cobranças de penalidades.

ORB – Nas últimas duas décadas, o Galo enfrentou muitas dificuldades financeiras na maioria dos anos. O senhor após encerrar a carreira virou preparador de goleiro do clube, mas a falta de dinheiro o fez migrar para o Rio Branco. Como foi isso?
TIDAL - Verdade. O Galo enfrentou inúmeras dificuldades, principalmente da ordem financeira. Na vida, ninguém pode viver somente de amor e eu não sou diferente. Certa vez, o saudoso Diogo Elias e o então presidente do Rio Branco, Sebastião de Melo Alencar, sabendo da difícil situação do Atlético Acreano, trataram de me levar para o Estrelão. Não tinha como recusar. Era questão de sobrevivência. Então fui e até hoje sou grato a ambos.

ORB – O senhor foi um dos grandes goleiros de nosso futebol. Hoje, seu filho, o Tidalzinho, após passagem pela maioria dos clubes acreanos, está de volta ao Atlético Acreano, onde o senhor é o responsável direito por prepará-lo. Como é essa relação entre pai preparador e filho goleiro e como ele despertou para posição?
TIDAL - Lembro-me que ainda nos primeiros anos de vida eu levava o Tidalzinho para a beira de campo, muitas vezes como o mascote do Atlético. Os anos se passaram e ele começou a ganhar gosto pela posição, apesar de nunca ser um dos grandes incentivadores da sua carreira.
Quanto a nossa relação pai e filho dentro do Atlético Acreano, prefiro tratar profissionalmente. Tenho três bons goleiros e quem estiver mais bem preparado é que irá jogar. Eu não escalo o jogador, é o jogador que se escala, ao se dedicar aos treinamentos e a filosofia de trabalho do clube.

ORB - O Galo chega a duas décadas sem títulos. O que fazer para pôr fim a esse jejum?
TIDAL – Primeiro, acredito que será necessária muita dedicação do grupo, comissão-técnica e diretoria. Outra coisa, a pegada será fundamental, pois o torneio será equilibrado. Ou seja, temos que “morder” dentro de campo, mas com respeito aos adversários.

Pai e filho: os guardiões do gol celeste

Tal Pai, Tal Filho. É inspirado neste ditado popular que o goleiro Tidalzinho, 33 anos, aposta suas fichas para ajudar o Galo Carijó a sair de um jejum de duas décadas sem títulos no profissionalismo e, assim entrar, como o pai, para a galeria de campeões do clube.

Com 10 quilos a menos em relação ao primeiro semestre do ano passado, o goleiro diz que tem se dedicado ao máximo para ganhar a boa forma física, que o fez lembrar muitas vezes o pai em baixo dos travessões. Tidal além de já ter vestido a camisa do Atlético, ainda atuou pelas equipes do Independência, Rio Branco, Vasco da Gama, Adesg, Sul-América-AM, Genus-RO e Cruzeiro-RO.

Em relação ao pai, ele demonstra todo o orgulho. “É um profissional de caráter. Querido por todos. Uma lenda viva aqui no Atlético Acreano”, comenta o arqueiro. Quanto ao fato do pai ser o seu preparador de goleiros, Tidalzinho diz que a responsabilidade ainda fica maior e espera não decepcionar, não apenas dentro de campo, mas também fora, pois sabe que está ganhando uma nova oportunidade na carreira e pretende não decepcionar ninguém que acreditou novamente no seu potencial, principalmente o pai Tidal.

 


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