Entrevistas
Técnico destaque na Copinha conta sua história no futebol

No mundo futebolístico é natural muitos usarem o jargão filho de peixe, peixinho é. Muitas vezes, com razão, outras nem tanto. No caso do técnico Álvaro José Marques Minguéis, 46 anos, o jargão tem tudo a ver, ao menos em sua opinião particular. O pai, o ex-político Ariosto Pires Miguéis, que fez história na beira do gramado ao comandar, nas décadas de 1970 e 1980, inúmeras equipes do futebol local, entre elas o Atlético Acreano, clube vice-campeão da temporada de 1981.

Feliz com o bom momento na carreira, após comandar a boa campanha do Galo Carijó na Copa São Paulo de Junior, o técnico Álvaro Minguéis, com rótulo de técnico estudioso e vitorioso nas categorias de base, afirma que quase tudo que apreendeu no futebol foi com o pai, hoje vivendo na cidade do Rio de Janeiro.

Buscando saber algo mais sobre a participação do Atlético Acreano na Copinha, a reportagem de O Rio Branco, tratou de entrevistar o treinador, que explicou os motivos pela eliminação, a falta de espaço para comandar um clube profissional, assim como da carreira futebolística.


ORB - Professor Álvaro Minguéis, quando foi que o mundo da bola despertou para o senhor?
Álvaro Minguéis
– Eu ainda era garoto quando me convidaram para jogar pelo infantil do Andirá EC na temporada de 1979. No mesmo ano, veio o convite para jogar pelo juvenil do Amapá, não resisti e também vestir a camisa laranja.

Enquanto a minha carreira com a camisa do Rio Branco, tenho a dizer que começou na equipe de juvenis na temporada de 1981. Um ano depois, fui morar no Rio de Janeiro. Porém, a convite do então presidente do Rio Branco FC Wilson Barbosa, resolvi retornar ao Acre para disputar a temporada de 1983, assim fazendo parte daquela espetacular equipe estrelada de 1983, onde tenho orgulho de afirmar que fiz um dos gols mais importantes da minha carreira no jogo de entrega de faixa contra o arquirrival AC Juventus.

ORB - Um ano depois, o senhor voltou a morar no Rio de Janeiro, ficando ausente daquela temporada. O retorno ao futebol ocorre somente em 1985 a convite de quem?

AM – Naquela época, já não tinha muito ânimo para jogar, mas o professor Fuzaca, então técnico do Atlético Acreano, e minha família e amigos me convenceram a retornar aos gramados. Porém, Após aquele ano, apesar de ainda ter participado de um Copão da Amazônia com a camisa do Amapá na temporada de 1989, passei a me dedicar à vida profissional fora dos gramados, precisamente trabalhando para a empresa da família, o Grupo Abreu.

ORB - O senhor é considerado um treinador que organiza bem as equipes por onde passa. Onde apreendeu isso?

AM – É uma característica que não abro mão. O meu pai quando foi treinador tinha essa característica. Portanto, costumo comentar aos amigos que 85 a 90% que apreendi no futebol devo ao meu pai.

ORB - Por quase duas décadas o senhor ficou afastado do futebol. Por que o retorno?

AM – Verdade. O fato de não visitar as praças esportivas, principalmente aqui no Acre, não quis dizer que não era mais um amante do futebol, tanto que acompanhava quase diariamente jogos pela televisão na busca de estudar a postura tática das equipes (algo que faço até hoje). Porém, quando tive a convicção de retornar para o futebol, após escutar inúmeros amigos e meus familiares, resolvi buscar formação acadêmica no curso de Educação Física da Ufac.

ORB – É verdade que o professor Illimani Suares foi o primeiro que estendeu mão para você iniciar a carreira de técnico?

AM - Sim. Estava preste a concluir meu curso de Educação Física, quando abriu uma porta, através do professor Illimani Suares, para um período de estágio.

ORB – Um ou dois anos depois o senhor apareceu para comandar as categorias de base do Rio Branco. De quem veio o convite?

AM – O convite partiu do professor Josman, que convenceu o presidente Natal Xavier para eu assumir as categorias de base do clube. Apresentei o projeto onde afirmava que iria vencer tudo daqui para frente na base. O presidente Natal Xavier gostou, mas desconfiou, afirmando como eu assinava um projeto que eu não tinha garantia que poderia ser cumprido na íntegra? Nesta mesma conversa, falei para ele me cobrar caso não viessem os títulos.

ORB – Os títulos vieram e senhor mesmo assim não continuou no clube. O que aconteceu?

AM – Conquistei 22 títulos nas categorias de base do Rio Branco, entre torneios e campeonatos da Federação de Futebol do Acre. O único insucesso ocorreu naquela derrota por W.O. Porém, no futebol, é natural que ocorra desgaste, opiniões divergentes e muitas vezes isso dificulta o trabalho, não havendo mais afinidade entre ambas as partes, é natural que haja rompimento.

ORB – Ano passado, a convite do presidente do Atlético Acreano o senhor aceitou o desafio de comandar as categorias de base da agremiação, assim conquistando seis títulos entre torneio e campeonatos da Ffac. Com se deu isso?

AM – Primeiro quero dizer que quando aceitei o convite da direção do Atlético Acreano sabíamos das dificuldades que teríamos pela frente, pois no primeiro semestre o orçamento do clube é direcionado ao futebol profissional. Porém, mesmo assim, tudo que foi acordado com entre a diretoria a minha pessoa foi cumprido.

ORB – Com o título de juvenis, a equipe se credenciou para a Copinha. Como foi a preparação para o torneio paulista?

AM – No início, foi difícil. O grupo era bastante jovem, precisava de muita disciplina e, além disso, ainda não sabíamos que poderíamos contar com jogadores mais experientes como: Polaco, Afonso, Tragorada, Maico, Pretinho e Pedro Paulo, este último jogador do São Francisco, os quais já eu já tinha trabalhado, mas que chegaram ao clube com várias deficiências de posicionamento, algo que trabalhei para corrigir.

ORB – O sucesso para a organização tática das equipes que trabalha é persistência?

AM – Olha, a persistência é algo que todos buscam realizar, mas, além disso, nunca me dou por satisfeito, sempre busco a perfeição, apesar de entender que nunca poderemos alcançá-la.

ORB - O senhor é considerado um treinador durão?

AM – Tenho essa fama. No entanto, fora do campo, tenho boa amizade com os jogadores, pois eles sabem que o que faço à beira do campo e para o bem do time, assim como para o desempenho de cada um deles.

Outra coisa, um atleta muito jovem tem dificuldade de assimilar as orientações táticas. O jeito era persistir e muitas vezes eram necessários gritos para acertar o time à beira do gramado.

ORB – É verdade que os seus jogadores têm que estudar táticas de futebol?

AM – Sim. Estimulo cada atleta meu a entender de tática de futebol. Além disso, converso muito com eles com objetivo de transmitir como joga o adversário, assim, acredito que fica mais fácil para eles assimilarem o jogo do adversário.

ORB - Porque não classificamos para a segunda fase da Copinha?

AM – Enumero três fatores: Três fatores: excesso de individualidade, problemas clínicos antes (dengue, malária e virose) e durante (infecção de garganta em três jogadores: Tragodara, Joel e Leandro) a competição e aspecto físico, não de condicionamento físico, mas sim de força e massa muscular – jogadores adversários têm biótipo superior aos dos nossos atletas. Quero acrescentar, ainda, que o professor Arnaldo Moreira, meu preparador físico, fez um excepcional trabalho, tanto que o time teve fôlego para suportar os adversários.

ORB – Sua equipe recebeu elogios de inúmeros comentaristas da grande mídia que cobriu a Copinha. Boa parte deles fez boas referências à organização tática.

AM – Isso tudo é fruto do trabalho, assim como da dedicação dos jogadores. Eu, não sendo vaidoso, quero diz que sou o único treinador que joga em linha no Brasil.

ORB - Em sua opinião porque o senhor não assumiu ainda um clube profissional?

AM – Pensei que o convite fosse pintar neste ano, mas não pintou. Talvez pelo fato do futebol local viver muito de influência extracampo (pessoas más intencionadas), não analisando os resultados e o trabalho do profissional.

ORB – É verdade que o senhor recebeu um convite da Red Bull?

AM – No ano passado, após a Copinha, fui convidado para conhecer o Centro de Treinamento da Red Bull. Nesta visita, ocorrida no mês de março, fui surpreendido com um convite realizado pelo austríaco Markus Schruf (homem forte no Brasil da Red Bull) para trabalhar com categoria de base. No entanto, à época, não podia largar emprego público e família da noite para o dia, como eles exigiam. Porém, hoje, caso venha a pintar um novo convite, estarei propenso a aceitar, principalmente se for algo bem planejado e seguro.

ORB - O senhor, para muitos, é considerado um técnico explosivo. O que o senhor acha desse pensamento?

AM – Tenho a dizer que fui expulso como treinador apenas uma vez. No entanto, muitos confundem o meu jeito de ser à beira do gramado. Neste ano, por exemplo, concordo que tive que gritar mais e esbravejar mais para acertar o time, pois tinha uma equipe com idade bem inferior aos demais concorrente ao título de juvenis.

ORB - Como sua família vê seu trabalho nas categorias de base?

AM – Minha família aprova, apesar de alguns, questionarem o fato de muitas vezes eu e o meu filho Gustavo – artilheiro do campeonato infantil da Ffac, chegarmos do treino e irmos direto para máquina de lavar roupa (primeiro semestre as categorias de base do clube não contava com lavadeira). No geral, todos entendem a importância do meu trabalho, não apenas para formar novos jogadores, mas também cidadãos e pessoas de bem.

FICHA TÉCNICA

Nome: Álvaro José Marques Minguéis

Idade: 46 anos

Funcionário da SETUL – concursado –

Carreira: Infantil Andirá/79, juvenil e adulto do Rio Branco/81-84, Atlético Acreano/85, Amapá/79 e 1989.

 


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