Colunistas
Verborragia da pelada
por Francisco Dandão



Vira e mexe eu me pego lembrando fatos de um passado remoto.

Um dia desses, eu lembrei de dois professores de geografia do meu tempo de ginasiano (Alberto Oliveira e Jacó) que falavam da necessidade de se preservar o meio ambiente e da estupidez que era pensar uma Terra plana.

Agorinha, no momento em que sento para “cometer” esta crônica, o que me vem à memória são determinadas frases ditas numas peladas de fim de tarde, tradicionais à época no bairro da Capoeira, meu reduto de então.

Uma das frases se aplicava quando dois sujeitos estavam querendo se estranhar.

Formava-se uma roda, colocava-se os desafetos no meio, frente a frente, e alguém do grupo botava a mão entre os dois e dizia: “O mais macho cospe aqui.” O resultado era que os brigões acabavam cuspindo um no outro. E aí a porrada comia, até que alguém resolvia separar os duelistas.

Outra frase se dizia quando as luzes do dia iam se apagando e praticamente só se via o vulto da bola e dos peladeiros.

Nessa situação, um sujeito gritava: “Meia hora na macaca.” Isso significava que não haveria mais marcação de falta. Caso em que tinha gente que dava um jeito de jogar só plantado na defesa.

E havia aquela frase destinada a inibir os candidatos a peladeiros, de modo geral forasteiros que ainda não podiam ser considerados como membros do grupo de todos os finais de tarde.

Esses candidatos chegavam meio tímidos, pelas beiradas do campo, e ficavam olhando de modo meio suplicante para os dois caras do par ou ímpar, torcendo para serem escolhidos para integrar um dos times.

Aí, alguém veterano do grupo tratava de adverti-los, antes da escolha, com a seguinte frase: “É o seguinte, moçada: se quiserem jogar fiquem logo sabendo que aqui na nossa pelada do pescoço pra baixo tudo é só canela.”

Mas as frases que eu recordo como as mais emblemáticas, capazes de serem aplicadas a várias situações da vida, era as que sugeriam que um sujeito que estivesse jogando mal pedisse pra sair, usando certa desculpa.

As tais frases eram as seguintes: “Fulano, tu não tá jogando coisa alguma… Não ganha uma dividida, só mata de canela, não acerta um passe, não dá uma dentro, não faz porra nenhuma… Então, pede pra cagar e sai!”

A pelada da Capoeira tinha uma verborragia bem peculiar naquele tempo. Peculiar e cheia de sabedoria. Essas últimas frases, inclusive, eu acho que até hoje se aplicam à perfeição a alguns figurões da República. Ou não?

 

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