Colunistas
O ano que não existiu
por Francisco Dandão



Anos de extremas dificuldades, convulsões sociais, ânimos exacerbados e combates, quaisquer que sejam as searas, costumam deixar marcas tão profundas que, não raro, proporcionam o surgimento de grandes obras literárias, cinematográficas, musicais etc. A arte sempre imita a vida!

Pensei nisso ao lembrar do livro “1968: o ano que não acabou”, do jornalista mineiro Zuenir Ventura (o mesmo autor de “Chico Mendes – Crime e Castigo”), lançado em 1989, relatando fatos que aconteceram naquele período da vida brasileira, que culminaram com o famigerado AI-5.

Zuenir Ventura é um desses cracaços da literatura e do jornalismo brasileiro. Desses caras que tem um poder incrível de se debruçar sobre fatos e extrair a essência deles, passando para os leitores um retrato exato do tema tratado. Sabe-se mais lendo Zuenir do que, às vezes, lendo livros de História.

Saltando 52 anos no tempo e emergindo nos dias presentes, à lembrança do livro inicialmente citado (“1968: o ano que não acabou”), eu fiquei imaginando que no futuro, referindo-se a 2020, algum autor inspirado pode muito bem produzir uma obra intitulada “2020: o ano que não existiu”.

Ou então, se for um autor menos, digamos, pessimista, levando-se em conta que a vida seguiu o seu curso normal até pouco depois do carnaval e dos primeiros turnos dos diversos campeonatos estaduais, a obra a ser lançada no futuro pode vir a se chamar “2020: o ano que só começou”.

Independente de como venha a se chamar uma futura obra sobre esses dias tenebrosos que estamos vivendo, e falando agora especificamente do futebol nosso de cada dia, tenho lido, escutado e visto por aí, nas mais diversas folhas, que os jogos vão voltar, mesmo ainda no curso da pandemia.

Dizem os defensores dessa ideia, criaturas que, ao que tudo indica, estão mais preocupadas com a bolsa do que com a vida (psicopatas aos poucos vão se instalando os mais diversos assentos da “república das bananas”), dizem eles que com os devidos cuidados, a bola pode, sim, rolar.

Eu, pra falar a verdade, não sei se vai mesmo ou não ter futebol com pandemia. Não saber de alguma coisa, aliás, não é nenhuma novidade, em se tratando do papai aqui que vos escreve estas linhas tortas de hoje. Eu sempre fui bem mais dúvida do que certeza. Tal e qual um Shakespeare sem paixão.

Eu não sei se o futebol vai voltar antes da vacina e dos remédios para essa bosta desse vírus insidioso. Mas eu acho que fazer a bola rolar nessas condições é uma temeridade. Não creio que algum cuidado possa se sobrepor ao risco que os atletas correrão. É fato: 2020 só começou. Ou nem vai existir!

 


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