Colunistas
Negue
por Francisco Dandão



Um dia desses eu escrevi o perfil do Ely, atacante amazonense de Boca do Acre que marcou época no Rio Branco durante 10 anos, entre 1971 e 1980. Versátil, uma vez que jogava em todas as posições do ataque, Ely ajudou o Estrelão a ser campeão de quase todas as competições que disputou.

O meu texto, naquela oportunidade, se reduziu a um resumo da carreira do Ely. O homem, aos 67 anos (ele nasceu no dia 10 de julho de 1952), tem histórias pra mais de quilômetro. Como o espaço destinado ao perfil dele era exíguo, volto ao tema para contar duas dessas histórias.

A primeira delas, datada do ano de 1973, diz respeito ao dia em que Ely entregou a camisa que normalmente jogava para ninguém menos do que o gênio Garrincha, bicampeão mundial, que esteve no Acre para disputar dois amistosos. Nesse dia, o jogo reunia os times Rio Branco e Juventus.

Ely, que jogava com a camisa de número sete, a mesma com que Garrincha atuou em todos os times por onde passou, foi encarregado de entregar o seu manto sagrado para o venerável ídolo momentos antes do jogo. Tudo de improviso, no vestiário, sob o comando do técnico Leó.

De acordo com o Ely, as pernas tremeram quando o técnico Leó lhe entregou a camisa cuidadosamente dobrada e lhe ordenou que a desse para o Garrincha. E então, como o time não podia jogar com dois ponteiros direitos, nesse dia Ely foi ocupar a extrema esquerda, do outro lado do campo.

O resto dessa história é que não foi de todo feliz. Garrincha jogou um tempo por cada time. Mas só decidiu arrebentar mesmo com o jogo quando passou para o lado do Juventus. Comenta-se que o culpado disso seria o lateral Stélio, do Estrelão, que teria prometido parar o gênio na porrada.

A segunda história do Ely diz respeito a um jogo contra o mesmo Juventus, em 1976, na decisão do Copão da Amazônia. Na oportunidade, o Juventus era o favorito pra ficar com o título. E ainda fez um a zero. Pois o Rio Branco venceu, com o gol da vitória sendo marcado justo pelo Ely.

Só isso já seria motivo para o Ely se encher de felicidade. Mas a história teve um desdobramento. É que Ely pegou uns companheiros de time e foi comemorar o título numa boate chamada Aquários, onde, por coincidência, se apresentava ninguém menos do que a diva Ângela Maria.

Herói do primeiro dos três títulos de Copão da Amazônia do Estrelão (os outros dois vieram em 1979 e 1984), Ely foi recebido na boate sob calorosos aplausos. E com direito a interpretação da música “Negue”, por Ângela Maria, na frente da mesa que ele ocupou. Bota emoção nisso!

 


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