Colunistas
O gol do Catega
por Francisco Dandão



No começo desta semana fez aniversário o meu querido amigo Tião Bruzugu, fisioterapeuta renomado, filho do falecido cientista político, empreiteiro e desportista Martim Bruzugu. Não perguntem quantos anos o Tião completou, que isso é segredo de estado. Ele não diz nem sob tortura.

Há quem garanta que ele já há algum tempo entrou no grupo dos sexagenários. Os que garantem isso, argumentam que o corpo do Tião só não demonstra tanta idade porque ele é uma dessas criaturas que se exercita compulsivamente, todos os finais de madrugada, no campo da Fazendinha.

E quanto à cabeleira, sem qualquer resquício de grisalho, nem dos lados, nem atrás, nem no cocuruto, aí a mágica estaria associada ao uso de produtos químicos, daqueles cujos rótulos alertam os sujeitos que os usam a evitarem terminantemente sair de casa sem proteção em dias de chuva.

Independentemente, porém, da idade do Tião, cujos amigos mais antigos o chamam de Catega, o que interessa aqui nestas mal traçadas de hoje é lembrar de uma história da adolescência dele, quando o dito cujo entendeu que seria jogador de futebol. Não apenas ser jogador, mas também goleador.

O pai Martim Bruzugu, que era dono de um time adulto chamado Asfalto (alusão ao uniforme, todo na cor preta), tratou logo de formar uma equipe juvenil: o Asfaltinho. E entregou a camisa 9, do centroavante, ao Tião Catega. Único titular absoluto, o time era formado pelo Catega e mais dez.

No decorrer das partidas, de fato o Tião Catega até que demonstrou ter alguma vocação para o ofício de goleador. A maioria dos gols do Tião era de pênalti, mas tudo bem. De pênalti também vale. Detalhe: os adversários eram sempre meninos de idade abaixo das dos jogadores do Asfaltinho.

Tudo ia mais ou menos bem, até que uma hora o Tião Catega criou uma dificuldade adicional. Não bastava mais somente fazer gols. Tava chato marcar gols de pênalti. Ele entendeu que deveria fazer o “gol que Pelé não fez”. Um gol do meio do campo. E passou a falar nisso todo santo dia.

Aí, num domingo nublado, daqueles que chove, para e chove de novo, o Asfaltinho foi jogar contra um time do bairro da Base. Jogo no bairro da Floresta, num campinho de topografia irregular, com uma acentuada ladeira. O Asfaltinho, naturalmente, tratou de jogar os dois tempos na parte de cima.

Lá pelas tantas, o Catega pegou uma bola no grande círculo e mandou uma bicuda. A bola quase não chegou à trave adversária, mas o goleiro pulou atrasado. Gol! O gol que Pelé não fez! Só anos depois o Tião descobriu que o goleiro fora subornado pelo pai Martim. Preço: um saco de carambolas!

 


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