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Futebol terá que trabalhar com menos dinheiro
por Augusto Diniz



Uma coisa que se tem clareza depois que passar a pandemia do coronavírus é que todos os gastos de qualquer tipo de organização terão que ser refeitos para baixo. Não há como imaginar uma recuperação com custos de antes da epidemia.

A paralisação de tudo e todos exige uma complexa análise de variáveis de toda a cadeia que cada um faz parte, para saber o tamanho exato do tombo e quanto tempo irá levar para se reerguer e principalmente como.

A cadeia do futebol envolve clubes, jogadores, associações promotoras, torcedores, patrocinadores e mídia – estamos falando aqui somente dos agentes principais.

Nos clubes, o histórico não ajuda. Sabe-se que muitos têm dívidas milionárias, aqui e no exterior. E isso não é de hoje.

O fato ocorre por afrouxamento de legislação até dirigentes com administração temerária, que colocam a paixão na frente da razão, levando a agremiação à insolvência.

Os clubes que tem muito dinheiro em caixa, por outro lado, sempre chamam a atenção se eles não estão sendo usados para outros fins, como dissimulação financeira.

Do lado dos jogadores, o salário inflacionou demais. Há gente dos times da elite ganhando muito sem produzir à altura.

Soma-se a isso a conhecida incapacidade do jogador de ler contextos, com visão mais holística do mundo, para ir além de seu umbigo. O atleta brasileiro então é absolutamente cego às demandas do entorno, e talvez este seja o principal motivo do progressivo distanciamento do torcedor do jogador por aqui.

As associações promotoras do futebol são os entes mais gananciosos da cadeia, com riscos baixos e prepotência elevada. São as apressadas em retomar os torneios, embora a decisão final seja dos clubes, pelo menos na prática, que deverão estão combalidos depois do isolamento obrigatório.

Os torcedores estão no aguardo. E ficarão ainda mais aqui, mesmo com a volta dos jogos. Por certo reavaliarão o prazer de ir ao estádio (pelo custo, segurança e conforto), pelo menos no Brasil. Mais torcedores de sofá deverão ser criados, pelo menos no começo da normalidade.

Patrocinadores terão que refazer seus investimentos de imagem e marca. A prioridade total será aplicar internamente na sua estrutura para encarar nova realidade e se reerguer. A flexibilidade (ou menos grana disponível) deve imperar nas negociações por patrocínio.

A mídia, que já não vinha bem por conta da transformação digital que passa o setor, deverá pôr menos dinheiro em direitos de transmissão – ou não tem geração ao vivo do jogo, seja na plataforma que for.

A realidade é que geradores de conteúdo e entretenimento também enfrentarão problemas com seus anunciantes. Sem a grana deles, não tem como viver.

Isso exposto, o imbróglio da cadeia do futebol é extensa. Há muita coisa para se resolver. E o problema maior é que a epidemia do coronavírus nem chegou ao ápice.

 

 


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