Colunistas
Tempos estranhos
por Francisco Dandão



O futebol, de modo geral, vive tempos no mínimo estranhos. São inúmeras as situações que sinalizam para essa estranheza. A começar pela necessidade do veto de uma das torcidas quando rivais tradicionais se enfrentam dentro do campo. Coisa mais esquisita. Não tenho dúvida disso.

Dar acesso a duas torcidas opostas é confusão na certa. Os caras não entendem a diferença da paixão. São adeptos do pensamento único. Quem torce para outro time não é mais chamado de adversário. Agora é inimigo. Não merece viver. Tem que ser sumariamente eliminado da face da Terra.

Pra mim, isso nada mais é do que um estado de barbárie. Não aceitar que alguém possa torcer por outro time não tem nenhum resquício de razão ou inteligência. Determinados torcedores (ou seriam marginais?) marcam até duelos nas vias públicas. Confrontos que, não raro, terminam em tragédias.

Mas essa intolerância com os adversários é somente um lado disso que eu estou chamando de “estranheza”. Tem muitas outras coisas que beiram as raias do absurdo acontecendo em ambos os hemisférios. Caso da punição de um jogador habilidoso. Onde já se viu? Parece até “história de Trancoso”.

“Trancoso”, pra quem não sabe, era um escritor português (dizem que amigo dos técnicos do Flamengo e do Santos), colecionador de contos de caráter fantástico, irreal, surreal, lendário etc. e coisa e tal. Então, com o tempo, qualquer relato fantasioso passou a se chamar “história de Trancoso”.

Mas voltando ao fio da meada, essa punição de um jogador habilidoso a qual eu me refiro aconteceu na França, com o Neymar. O brasileiro levou um cartão amarelo por aplicar uma “lambreta” num adversário. Monsieur “Dacu”, o árbitro, puniu o Neymar por conta de um lance de habilidade!!!

Eu fico imaginando o Garrincha jogando hoje. Ou o Canhoteiro (ponteiro esquerdo do São Paulo na década de 1950). Com alguns minutos de jogo, pelos critérios desse árbitro descendente de Charles de Gaulle, Napoleão Bonaparte e assemelhados, os dois iriam direto para o chuveiro.

- Não façam mais isso, senhores craques, não driblem os seus adversários de forma humilhante. A obrigação dos senhores é se livrar da bola o mais rápido possível. Lambreta, letra, bicicleta, drible da vaca, chapéu, tudo isso está terminantemente proibido - diz a arbitragem francesa.

É cada uma que até parece duas. Ainda bem que o Botafogo agora resolveu trazer um japonês chamado Honda para arrumar o seu meio de campo. Eu não quero saber de piada com o Honda. Afinal, nós já tivemos um Beto Fuscão, um Luís Chevrolet e um Paulinho McLaren. Na boa, viu?

 


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