Colunistas
Causos da Bola
por Francisco Dandão



Eu já disse muitas vezes, mas não custa dizer de novo: sou fascinado por livrarias. Não consigo passar na frente de uma, qualquer que seja o lugar do planeta, fingindo que ela não está ali ou que eu não a vi. E também não consigo entrar numa delas sem comprar pelo menos uns dois livros.

Entro nesses estabelecimentos de forma mais do que compulsiva. E, frequentemente, entro sem procurar nada assim tão específico. Mas é só avançar os olhos pelas estantes que eu vou sendo seduzido pelos mais diversos títulos e saio recolhendo exemplares. Uma paixão da vida inteira.

Na minha recente estada em São Paulo eu empreendi uma dessas viagens lúdicas pelos corredores da Livraria Cultura, ali na Avenida Paulista, esquina com a Rua Augusta. E, como de praxe, encontrei umas quantas pérolas em forma de papel que me fizeram sair com uma sacolinha cheia.

Uma dessas pérolas foi um livro chamado Causos da Bola, de autoria do falecido jornalista Michel Laurence. Este, um francês de Marselha, que se mudou para o Brasil ainda na infância, virando cronista esportivo alguns anos depois. E, nessa condição, cobriu um monte de copas do mundo.

Causos da Bola se apresenta para o leitor recheado de histórias de bastidores do futebol brasileiro, cada uma mais deliciosa que a outra. E histórias que se não fossem escritas jamais poderíamos sabe-las. Algumas mais parecem fábulas. Mas, se não aconteceram, deveriam ter acontecido.

Histórias, por exemplo, como a dos dois jogadores que não aceitaram a convocação para jogar na seleção brasileira que foi à Copa de 1958. Ambos na posição do então garoto Edson Arantes do Nascimento, o depois rei Pelé. O primeiro chamava-se Evaristo de Macedo. O outro se chamava Zizinho.

No caso do Evaristo de Macedo, de acordo com o relato do Michel Laurence, foi o espanhol Barcelona, onde ele jogava, que não o liberou. A Espanha não se classificou para aquele Mundial e, dessa forma, o campeonato deles não ia parar durante a Copa. Aí o Evaristo foi impedido.

No caso do Zizinho, foi ele que recusou a convocação por solidariedade ao parceiro Canhoteiro. Os antigos dizem que o Canhoteiro era um ponteiro esquerdo genial, mas adorava uma farra. Por esse motivo, ele foi cortado da seleção. E aí o Zizinho disse que também não iria à Copa.

Então, só pelas ausências desses dois é que se resolveu convocar o negrinho do Santos. Depois veio todo o resto da história que a gente está cansado de saber: mais de mil gols, três Copas do Mundo, dois mundiais de clubes, guerras paralisadas, o maior jogador da história do futebol... Causos!

 


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