Colunistas
Fator Campo
por Francisco Dandão



Vai começar a fase de grupos da Copa Libertadores da América. O primeiro dos times brasileiros a estrear na competição vai ser o Flamengo, na próxima terça-feira, último dia do carnaval. Vai subir o morro para jogar contra um certo São José, representante do “nada a ver” futebol boliviano.

Em princípio, deveria ser um jogo de relativa facilidade para o rubro-negro carioca. Existe uma diferença abissal entre o futebol brasileiro e o boliviano. Ainda haverá de passar uns bons cinquenta anos para que os bolivianos, em condições normais, possam fazer frente aos nossos times.

Disse eu “em condições normais” porque um ingrediente fundamental envolve esse jogo. Justamente a altitude de 3706 metros onde se localiza a cidade de Oruro, sede do tal São José. Pra quem não está acostumado, jogar numa altitude dessas requer um esforço absurdo. Aliás, pra lá de absurdo.

Eu sei disso por experiência própria. No início de 2005, eu me atrevi a fazer um tour por La Paz, a capital lá dos colhas. Pra subir uma pequena ladeira, eu precisa fazer três ou quatro paradas para descanso. E ressalte-se que eu não fui jogar futebol. Além disso, La Paz é menos alta do que Oruro.

Nem a mandinga vendida aos paturebas no Mercado de las Brujas (Mercado das Bruxas), no centro da capital boliviana, me fez melhorar do troço que eles chamam “mal das alturas”. A bruxa que me atendeu jurou que umas doses generosas de chá de coca me fariam melhorar no mesmo instante.

E se o chá de coca não fosse suficiente, que eu pregasse na testa uma folha de capeba, que seria “tiro e queda”. E que se, ainda assim, eu continuasse a me sentir mal, era porque os deuses que habitam a montanha Illimani (cartão postal da cidade) não tinham ido com a minha cara.

Pois eu lhes digo que nada surtiu efeito. O único resultado do chá de coca foi me fazer ir ao banheiro a cada meia hora (em um dado momento, um boliviano me aconselhou a mijar no meio da rua mesmo). E a folha de capeba só serviu para deixar uma marca de sujo bem no meio da minha testa.

Pra completar, no dia marcado para voltar estourou uma greve dos aeroviários. E ressalte-se que lá, à época, não tinha esse negócio da companhia aérea pagar hotel para os passageiros. Eles riam quando eu falava nisso. Tive que sofrer mais dois dias e ainda estourar o cartão de crédito.

Mas voltando ao fio da meada, o que eu dizia lá no começo deste texto era que o Flamengo vai pegar uma senhora pedreira, a despeito da (má) qualidade do adversário. Em Oruro, assim como em La Paz, a grande arma (talvez a única) dos nativos é o fator campo. A altura é o maior craque deles!

 


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