Colunistas
Crendices e superstições
por Francisco Dandão



Brasileiro é bicho supersticioso. Via de regra, mesmo quem não crê na existência de bruxas, bate na madeira para espantar o azar e se benze antes de entrar num avião. Os mais radicais repetem uma peça de roupa sempre que fazem qualquer coisa que acreditam depender de sorte e bons fluidos.

Eu conheço gente que não passa por baixo de escada nem para salvar uma alma. Se a tal escada estiver erguida na extensão da largura de uma calçada, o sujeito prefere passar pela pista dos carros. Ainda que a chance de ser atropelado seja maior do que o da escada desabar, prefere correr o risco.

No futebol, então, a presença dos supersticiosos parece que se potencializa. A maioria dos jogadores, inclusive os canhotos, só entra em campo com o pé direito. Entrar no gramado com o pé esquerdo, na cabeça dessas criaturas, dá o maior azar. As chances de vitória se tornam nulas.

Existe treinador de futebol de ponta do futebol brasileiro que usa sempre a mesma camisa em dia de jogo. Os mais chegados do dito cujo explicam que não é a mesma camisa. Dizem que é uma camisa do mesmo modelo e de igual cor. Nesse caso, a magia é da cor e não da peça de roupa.

E existe os que, para não dar na vista, usam sempre a mesma peça íntima nos confrontos. É o caso, comenta-se, do mago do futebol acreano Marcello Altino. O treinador, pelos tais comentários, vestiria a mesma cueca usada no dia em que o Rio Branco foi campeão da Copa Norte, em 1997.

No passado do futebol acreano, aliás, muitos personagens se notabilizaram pela sua suposta capacidade de manipular as forças do universo imaterial para atuarem a favor das suas equipes do coração. Lembro, enquanto escrevo, de dois deles: o Aníbal Honorato e o Velho Jaú.

Conta-se que o Aníbal, quando treinava o Rio Branco, mandava despejar quilos de sal grosso na caixa d’água do vestiário do Estrelão. E obrigava os jogadores a tomar banho antes do jogo. Não se sabe o quanto isso dava certo. O que se sabe é que os atletas passavam dias se coçando.

E conta-se que o Jaú, massagista do Atlético, ele próprio um frequentador assíduo das encruzilhadas, foi o responsável pelo título do clube na decisão de 1968 contra o Juventus. O Galo tinha um time inferior e perdeu o primeiro jogo por 6 a 0. Depois venceu duas vezes (1 a 0 e 3 a 2).

Eu sou da turma dos que não acreditam em nada disso. Passei boa parte da vida dentro de universidades. Cursei duas graduações, um mestrado e um doutorado. A ciência e a razão é que guiam as minhas ações. Por vida das dúvidas, porém, vou me vestir de branco e pular sete ondas na virada do ano!

 


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