Colunistas
Escapulário, uma versão
por Francisco Dandão



Estou escrevendo por esses dias o perfil do saudoso craque Escapulário, um paraense da cidade de Belterra que a bola foi trazendo para o extremo oeste da Amazônia até fazê-lo ancorar o seu barco na capital acreana, para defender por nove anos o Independência Futebol Clube.

Batizado José Maria Pinheiro dos Santos, Escapulário ganhou o apelido na adolescência, por conta de um amuleto que ele trazia pendurado no pescoço. Quando ele chegou ao São Raimundo de Santarém (PA), aos 15 anos, em 1960, ninguém mais o chamava pelo nome próprio. Ninguém!

Escapulário ficou no São Raimundo até 1964, sagrando-se bicampeão municipal pelo alvinegro santareno. Na época, por ser excessivamente magro e costumar ensaiar ritos de dança na frente dos zagueiros adversários, ganhou um segundo apelido: bailarino. Ele dançava par ludibriar os brutamontes!

Em 1965, o jovem meia atacante foi exibir o seu talento em Porto Velho. Um dirigente do Ferroviário ficou fascinado com a habilidade dele. Durante três anos ele deslumbrou os torcedores da então capital da cassiterita, onde também defendeu as cores do glorioso Moto Clube.

A mudança para o Acre, de onde nunca mais sairia, veio em 1968, pelas mãos do empresário e diretor do Independência Adalberto Aragão. Mas antes de estrear pelo Tricolor de Aço ele ainda teve tempo de jogar, emprestado, um torneio pelo Vasco da Gama do professor Almada Brito.

No brevíssimo tempo em que jogou pelo Vasco da Gama, Escapulário comeu a bola. Desempenho confirmado logo em seguida, na disputa do campeonato estadual, com a definitiva camisa do Independência. Era o início da lenda de um dos maiores jogadores de meio-campo do futebol acreano.

De 1968 até 1976, Escapulário foi campeão estadual três vezes (1970, 1972 e 1974), na companhia de craques notáveis do futebol regional. Casos de Chico Alab, Flávio, Bico-Bico, Palheta, Eró, Aldemir Lopes, Jangito, Zé Augusto, Valdir Silva, Júlio César, Deca, Rui Macaco e Nostradamus!

Escapulário pendurou as chuteiras aos 31 anos. Embora ainda jovem, o craque começou a sofrer de constantes problemas musculares. Sabia tudo de bola, mas entendeu que não conseguia mais acompanhar a correria dos atletas que estavam surgindo. Foi ser peladeiro e tomar as suas cervejinhas.

Escapulário desenvolveu táticas para não se deixar quebrar pelos zagueiros violentos. Uma delas, numa época em que não existiam caneleiras, era proteger as pernas finas com pedaços de papelão. Foi um dos gênios do futebol acreano. Morreu aos 65 anos, em 2 de janeiro de 2011. Virou lenda!

 
© Copyright 2004 - 2018 / Todos os direitos reservados a Futebol do Norte