Colunistas
A hora da onça
por Francisco Dandão



Não lembro muita coisa da minha avó materna. A avó paterna nem cheguei a conhecer. Mas eu dizia que não lembro muita coisa da mãe da minha mãe. Quando ela morreu eu estava com apenas cinco anos de idade. Agora que estou com vetustos sessentinha, a lembrança quase se esvaiu.

Pra falar a verdade, a minha lembrança da Dona Maria Alfa da Conceição me vem mais de um retrato durante décadas pendurado numa parede. Retrato não, uma pintura. É que se usava muito, no tempo da minha avó, se produzir pinturas elaboradas a partir de alguma fotografia antiga.

Mas tem uma coisa a qual bem me lembra do jeito de ser da minha avó. O costume de dar lições por metáforas, a partir de sentenças clichês, repetidas de boca em boca, bem à moda da época. Dependendo da ocasião, havia uma sentença (o pessoal da época chamava as sentenças de “ditado”).

Um dos ditados preferidos da minha avó, repetido à exaustão, quando se aproximava o momento de alguma decisão difícil, daquelas das quais se poderia abrir o caminho para as estrelas ou o seu oposto rumo ao inferno, era justamente aquele que dizia ser a hora de a “onça beber água”.

“Tá chegando a hora da onça beber água”, repetia minha avó, sem olhar diretamente para o destinatário da mensagem, como se estivesse falando com alguma entidade invisível. Ela não olhava diretamente, mas o tal destinatário sabia que era com ele. O mantra soava como advertência.

Pois muito bem. Você, leitor, deve estar curioso para saber o que foi que me fez desfiar esses fragmentos de reminiscências familiares. Digo já. O que me trouxe à consciência essas memórias foi a proximidade dos jogos decisivos na série D do “Brasileirinho”, envolvendo Atlético e Rio Branco.

Ambos, como todo mundo já sabe, fazem a primeira partida fora de casa. O Galo vai a Santarém, no interior do Pará, às margens do Rio Tapajós, encarar o São Francisco. O Estrelão vai a São Luís, capital do reggae e da “cannabis”, denominada de Ilha do Amor, encarar o Maranhão.

O primeiro combate, o chamado jogo de ida, é importante, mas não, necessariamente, decisivo. Quer dizer, não é decisivo se não houver um placar elástico para alguma das partes. Se um dos contendores sofrer uma goleada, “adeus, tia Chica” (outro dos “ditados” da minha falecida avó).

Se o placar da primeira partida for parelho, mínimo para qualquer dos lados, então tudo fica para ser resolvido no segundo confronto, o chamado “jogo da volta”. Tomara que a onça esteja do lado do Galo e do Estrelão. E que ela possa beber sua água bem longe da mira dos caçadores!

 
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